Ingrid Farias, 42 anos, é filha de PC Farias. Seu pai foi o tesoureiro da vitoriosa campanha de Fernando Collor de Mello em 1989 e pivô de seu impeachment três anos depois. O documentário “Morcego Negro” e a série de ficção “Segredos tropicais” buscam desvendar o homem por trás da caricatura e as relações viciadas de poder, com Alagoas como microcosmo do Brasil. Ingrid tem motivação aparentemente mais simples: tirar do pai a pecha de vilão.

“Morcego Negro”, de Chaim Litewski e Cleisson Vidal, coprodução, entre outros, de GloboNews, GloboFilmes e Canal Brasil, foi destaque esta semana do É Tudo Verdade e recebeu menção honrosa como melhor longa brasileiro no festival.

“Segredos tropicais”, série de ficção em desenvolvimento pela Boutique Filmes, que comprou de Ingrid os direitos de adaptação da história, produzida por Gustavo Mello e Guilherme César, se concentrará nos dois últimos anos de vida de PC.

— Há quem diga que estamos precisando de dinheiro, que queremos lucrar com a morte do meu pai tanto tempo depois. Não é verdade. Quero é que meus filhos conheçam a história do avô deles, não o que ficou registrado na imprensa — disse Ingrid ao jornal O Globo.

O documentário, que parte do livro “Morcegos negros”, do jornalista Lucas Figueiredo, termina com Collor afirmando que “no contexto do atual momento político brasileiro, Paulo César foi quase um anjo”.

Já a ex-ministra Zélia Cardoso de Mello, uma das mais de 50 entrevistadas, é direta sobre o preconceito do empresariado com o sujeito careca, barrigudo, com sotaque e bigode espesso: “Eles o viam como um cangaceiro”. O que não impediu o mercado de despejar rios de dinheiro nos cofres da campanha afim de evitar a vitória de Lula e do PT.

Documentário e série não passam pano para o ex-seminarista acusado de formação de quadrilha, captação ilegal de fundos de campanha eleitoral e cobrança de propina para licitações de obras, mas o humanizam. E Ingrid, contam seus idealizadores, foi central para se entender a família Farias, “tipicamente brasileira, festeira”. Ela os retira, pontua Litewski, do “imaginário dos esquisitões”. O “monstro” dá lugar à complexidade da figura central para se entender o Brasil de hoje.