Homenagear as mães, não importando o modo pelo qual elas assumiram esse papel, é uma celebração tão antiga quanto o grito de “Não sou sócia da Coelba” que muita criança baiana já deve ter ouvido quando passava tempo demais com as luzes acesas dentro de casa. A história mostra que desde a Grécia Antiga havia festividades para adorar essas figuras maternas, e o Brasil reserva o segundo domingo de maio só para elas desde 1918. Até hoje, o Dia das Mães vive na memória afetiva de muitas famílias, como sinônimo de almoços animados reunindo diversas gerações, comércios lotados na tentativa de encontrar o presente ideal, e a sensação de que um dia apenas não é suficiente para exaltar o valor das mães e agradecer pela presença e cuidados delas. A data revela muito sobre a relação do filho com a mãe, ou com a pessoa que representa este papel.

Se a proximidade não é tanta, o segundo domingo de maio se torna um dia difícil e as inúmeras declarações de amor nas redes sociais podem causar desconforto; algumas marcas, como a C&A, ofereceram aos clientes a possibilidade de não receber mensagens sobre o Dia das Mães. A situação se torna ainda mais delicada com a pandemia, quando a alegria da celebração dá lugar ao vazio e à saudade provocada pela perda de uma pessoa tão importante para o vírus. Com isso, se torna ainda mais importante valorizar os momentos juntos. “Minha relação com a minha mãe é tranquila, levando em conta, claro, que engoli todos os sapos e minhas insatisfações”, revelou o produtor Filipe Oliveira. Assim como acontece em muitas famílias, o cotidiano no lar passa por altos e baixos, e ele passa por um momento de tensão devido ao fim do curso de Produção em Comunicação e Cultura. Mas não pretende deixar a data passar em branco: “Sim, pretendo vê-la no domingo e dar um presente”, contou.

Se, para o comércio, a data é considerada a segunda mais rentável do ano e é garantia de que muitas roupas, sapatos e perfumes serão vendidos aos filhos que enchem os corredores dos shoppings e as principais avenidas de Salvador, há mães que não fazem questão de receber presentes. É o que acontece na casa da agente cultural Vanessa Avelar, onde o domingo deve ser como qualquer outro dia, por opção própria da homenageada. “Mainha nunca curtiu festa ou presente. Nem almoço, ou coisa do tipo. Até dei a ela um shampoo e condicionador em barra, e provavelmente domingo será vendo algum filme na Netflix”, comentou. Na família do namorado, o professor e produtor musical Gerry Barbuda, todos se juntam para comprar um presente para a mãe e fazer um almoço, com a presença apenas das pessoas da casa, imperativo ainda mais forte por conta das restrições impostas pela pandemia, que há quase dois anos vem mudando o jeito de comemorar momentos importantes como este.

É o caso da professora aposentada Aidene dos Santos, que precisou mudar o rumo das festividades: em 2020, ela perdeu a mãe e o irmão num intervalo de dois meses, entre março e maio. Com isso, o tradicional almoço de domingo, que reunia mães e filhos de diversos ramos da família, não acontecerá, dando lugar a um fim de semana com as filhas e seus maridos numa casa de veraneio em Barra do Jacuípe, no litoral norte. “Como mainha já não está mais aqui, eu vou aproveitar e vou passar fora. Não com tantas pessoas como eu queria. Eu arrumei uma casa para trinta pessoas, mas por conta da pandemia a gente não vai fazer nada”. A viagem se tornará possível, pois ela e os mais velhos já tomaram as duas doses da vacina contra o coronavírus, e os custos serão divididos entre os participantes, por conta da situação financeira. Mesmo com o gosto amargo da saudade, ela não abre mão da comemoração. “Estamos indo para ver se passamos um dia mais feliz”, afirmou.

Sua irmã, Aldinei da Silva, sempre comemorou a data com os dois filhos, geralmente fazendo um de seus passeios favoritos: ir ao shopping almoçar e passar um tempo em família. É uma das únicas concessões que ela faz em sua rotina sempre atarefada; em sua juventude, sempre dava um jeito para conseguir um dinheiro extra. “Comecei a trabalhar com catorze anos de idade, fazendo boneca para meu pai vender nos prédios onde ele trabalhava”. O trabalho não parava nem mesmo no Dia das Mães: ela chegou a vender flores de sabonete e rosas naturais na Estação Pirajá e em frente ao antigo Super Monteiro, hoje Atakadão Atakarejo no bairro do Caminho de Areia. Além da perda do irmão Ladislau com suspeita de Covid-19 no fim de maio de 2020, a salgadeira não pretende comemorar a data por ter encomendas a entregar no domingo, começando o dia na cozinha; ao fim do trabalho, o que ela deseja mesmo é descansar. Ela ganhou alguns artigos de que precisava da filha mais velha, mas o que valoriza mesmo é a presença: “Só de poder passar o dia com meus filhos já vale muito”, diz.