O relatório final do Centro de Investigação e Prevenção de Acidentes Aeronáuticos (Cenipa), divulgado neste sábado (26), concluiu que a Voepass recorria a procedimentos que permitiam prolongar a operação de aeronaves além dos limites previstos pelas normas de segurança. A apuração faz parte da investigação sobre a queda do voo 2283, em Vinhedo (SP), em agosto de 2024, acidente que provocou a morte das 62 pessoas a bordo.
De acordo com o documento, a companhia registrava falhas técnicas na Lista de Equipamentos Mínimos (MEL) e, ao fim do prazo estabelecido para a correção, informava que o equipamento havia voltado a funcionar, mesmo sem a realização do reparo. Com essa prática, o período autorizado para a operação da aeronave era reiniciado.
Na avaliação do Cenipa, o procedimento mascarava falhas recorrentes e possibilitava que aviões permanecessem em serviço “em condições sabidamente degradadas”, ultrapassando os limites definidos pelos regulamentos de manutenção.
Apesar dessa constatação, os investigadores ressaltam que não encontraram indícios de que essa estratégia tenha sido utilizada em relação aos equipamentos registrados na MEL da aeronave envolvida no acidente de Vinhedo. Conforme o relatório, os dez itens relacionados ao avião estavam dentro dos prazos previstos pelas normas.
A investigação identificou, no entanto, outra irregularidade envolvendo a aeronave acidentada. Falhas no sistema de degelo registradas em voos anteriores e também no dia da queda deixaram de ser anotadas no diário de bordo.
Segundo o Cenipa, a ausência desses registros impedia a abertura formal dos procedimentos de manutenção, evitando o início da contagem do prazo para o reparo. Com isso, medidas preventivas, como a substituição da aeronave ou alterações na rota, deixavam de ser consideradas.
O relatório também aponta que havia orientação interna para evitar o registro de defeitos que pudessem resultar na retirada de aeronaves de operação. Na avaliação dos investigadores, esse cenário exercia pressão sobre os pilotos para que não reportassem discrepâncias técnicas e refletia uma cultura organizacional marcada pela “normalização do desvio”, quando práticas irregulares passam a ser tratadas como rotina.
Outro ponto destacado pelo documento é que a Agência Nacional de Aviação Civil (Anac) já havia detectado problemas relacionados ao sistema de degelo da Voepass antes do acidente.
Em nota, a Voepass afirmou que a tripulação do voo era experiente, treinada e certificada. A empresa também declarou que sempre seguiu padrões internacionais de segurança e que continua colaborando de forma transparente com as investigações conduzidas pelo Cenipa.




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