Integrantes do governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) decidiram reavaliar a estratégia de comunicação adotada em relação ao caso Master após pesquisas de opinião indicarem que a corrupção voltou ao topo das preocupações dos brasileiros, ao lado da segurança pública.

Segundo a Folha de S. Paulo, aliados do presidente indicam que levantamentos recentes mostraram que as investigações, embora conduzidas por órgãos federais, reforçaram na percepção popular a associação do problema à atual gestão. A avaliação interna é de que o tema deixou de ser um trunfo político e passou a representar risco de desgaste.

Lula vinha adotando tom contundente sobre o caso em declarações públicas, afirmando que as apurações chegaram aos “magnatas do crime” e defendendo que as investigações avancem para esclarecer relações entre o banco Master e o Banco de Brasília (BRB).

Orientação para afastamento

Ainda de acordo com a Folha, a nova diretriz no Palácio do Planalto é orientar ministros a evitar declarações sobre o caso, sob o argumento de que o governo não deve se envolver em eventual tensão entre o Supremo Tribunal Federal (STF) e a Polícia Federal.

Ministros da Corte reagiram a um relatório da PF que mencionou o ministro Dias Toffoli, então relator do processo. Após a divulgação do documento e pressão nos bastidores, Toffoli deixou a relatoria. O caso passou ao ministro André Mendonça, indicado pelo ex-presidente Jair Bolsonaro (PL).

Na avaliação de interlocutores de Lula, a troca do relator reduz suspeitas de eventual interferência do Planalto, já que Toffoli foi indicado ao STF pelo próprio Lula em 2009.

Mudança de foco

O governo deve manter apoio institucional às investigações conduzidas pelo Banco Central, pela Polícia Federal e pela Receita Federal, ressaltando que as apurações foram iniciadas na atual gestão. No entanto, o caso não deve mais ocupar espaço central nos discursos oficiais.

Aliados defendem que o combate à corrupção seja tratado como política permanente de Estado, e não como agenda político-eleitoral. Parte do núcleo governista também propõe redirecionar a comunicação para pautas econômicas, como a taxação de setores de maior renda para financiar programas sociais.

Potencial de desgaste

Nos bastidores, integrantes do PT e do Judiciário, conforme relatado pela Folha, avaliam que o caso Master pode se transformar em grande escândalo político devido às conexões do ex-banqueiro Daniel Vorcaro com lideranças do centrão, como o senador Ciro Nogueira (PP-PI) e Antonio Rueda, presidente do União Brasil.

O banco também manteve relações com figuras próximas ao governo. O ex-sócio de Vorcaro, Augusto Lima, teve vínculos com o ministro da Casa Civil, Rui Costa, e com o senador Jaques Wagner (PT-BA), em iniciativas na Bahia.

A possibilidade de desgaste reacende um histórico sensível para o PT. O partido foi atingido por escândalos como o mensalão e a Operação Lava Jato, que resultou na prisão de Lula em 2018. Embora o presidente tenha obtido posteriormente decisões judiciais favoráveis e retornado ao cargo, adversários continuam explorando o discurso de corrupção contra a legenda.