Uma carta assinada pelo músico Ari PB, da banda Cacau com Leite, foi apresentada na Câmara Municipal de Ilhéus (CMI), durante a sessão da última terça-feira (27/10). O documento condena as manifestações de ódio que tomaram conta do País após o segundo turno das eleições, especialmente as direcionadas aos artistas, e ainda cobra respeito à classe.
“Não posso aceitar que uma profissão inteira seja desrespeitada, como se o simples fato de alguém viver da arte fosse motivo de vergonha. Eu sou artista. Sou músico. E nunca fui vagabundo”, diz um trecho da carta escrita por Ari. Ele cita especificamente um vídeo em que uma pessoa ofende artistas de maneira generalizada, “classificando-os como vagabundos, maconheiros e usuários de drogas”.
O músico ainda explicou que os escritos também são uma forma de registro para a posteridade do que representa a atividade que moldou a sua vida e lhe garante o sustento. “Que esta carta permaneça como testemunho para meus descendentes e para todos os familiares de artistas que, em algum momento, precisarem lembrar ao mundo que viver da arte é viver do próprio trabalho”, diz outro trecho.
A leitura da carta de Ari PB foi feita pelo vereador Paulo Carqueija (PSD) e pode ser assistida no canal da TV Câmara no YouTube (https://www.youtube.com/@camarailheus4494).
Abaixo, a íntegra do documento:
CARTA ABERTA À SOCIEDADE E ÀS FUTURAS GERAÇÕES
A DIGNIDADE DE QUEM FAZ DA ARTE O SEU TRABALHO E DA MÚSICA A SUA VIDA
Escrevo esta carta não movido pelo ódio, pelo ressentimento ou pelo desejo de atacar quem quer que seja. Escrevo porque existem palavras que não podem passar sem uma resposta, principalmente quando atingem a honra de homens e mulheres que dedicam suas vidas ao trabalho, à cultura e à arte.
Recentemente, tomei conhecimento de um vídeo em que uma pessoa se referia aos artistas de maneira generalizada, classificando-os como vagabundos, maconheiros e usuários de drogas.
Não pretendo julgar a vida particular de ninguém. Mas não posso aceitar que uma profissão inteira seja desrespeitada, como se o simples fato de alguém viver da arte fosse motivo de vergonha.
Eu sou artista. Sou músico. E nunca fui vagabundo.
Dedico minha vida à música, aos palcos, às estradas, aos ensaios, às gravações e ao compromisso de levar alegria e entretenimento às pessoas.
Minha trajetória não é construída apenas sob as luzes dos refletores ou diante dos aplausos de uma plateia.
Ela é construída com trabalho, responsabilidade, noites sem dormir, viagens intermináveis, saudade da família, compromissos assumidos e a permanente preocupação de fazer o melhor para aqueles que dependem de mim.
À frente da banda Cacau Com Leite — O Forró da Bahia, tenho o orgulho de participar de uma história que vai muito além de uma carreira artística.
Ao longo dessa caminhada, inúmeras famílias já fizeram e continuam fazendo parte da nossa trajetória, representadas por músicos, motoristas, técnicos, produtores e trabalhadores do entretenimento em geral que passaram e continuam passando pelos palcos da Cacau Com Leite.
São profissionais que, com seu talento, dedicação e esforço, ajudam a construir essa história que permanece viva.
Por trás de cada apresentação existem pessoas, sonhos, responsabilidades e famílias que encontram na música e no entretenimento uma fonte digna de sustento.
Cada compromisso realizado representa muito mais do que um espetáculo. Representa trabalho, renda, alimento na mesa, educação para os filhos e dignidade para famílias inteiras.
Enquanto o público vê o artista no palco, poucos enxergam o peso da responsabilidade que existe por trás daquele espetáculo.
E assim acontece com milhares de artistas espalhados pelo Brasil.
O cantor que atravessa a madrugada numa estrada, o sanfoneiro que passa horas ensaiando, o percussionista que carrega seus instrumentos, o compositor que transforma sentimentos em canções, o ator que dedica meses a uma montagem, o dançarino que enfrenta anos de preparação.
Todos são trabalhadores. Todos merecem respeito.
A arte não é sinônimo de vagabundagem.
A música não é uma atividade menor.
O palco não é esconderijo de pessoas sem responsabilidade.
A arte é profissão, é disciplina, é dedicação, é cultura e também é sustento.
É possível que existam pessoas que façam escolhas erradas no meio artístico, assim como existem em todas as outras profissões. Mas ninguém tem o direito de transformar comportamentos individuais em uma condenação coletiva.
Não se pode apagar uma vida inteira de trabalho com uma frase carregada de preconceito.
E é justamente por isso que faço questão de deixar este registro.
AOS MEUS FILHOS E FILHAS, NETOS E NETAS, BISNETOS E BISNETAS
E a todas as gerações da minha família que ainda virão.
Quando estas palavras chegarem às mãos das futuras gerações, talvez muita coisa tenha mudado. Os palcos poderão ser diferentes, as estradas poderão ter outros caminhos, os instrumentos poderão evoluir e novas formas de fazer música certamente existirão.
Mas quero que vocês saibam de uma coisa:
O trabalho é parte fundamental da minha história. E a música é a profissão que abraço com amor, coragem e dignidade.
Não tenham vergonha de dizer que seu pai, seu avô ou seu bisavô é ou foi um artista.
Tenham orgulho!
Porque cada apresentação, cada viagem, cada ensaio e cada conquista fazem parte da minha luta por uma vida melhor para minha família e para as inúmeras famílias que caminham ou já caminharam comigo.
Não peço que minha história seja lembrada como uma trajetória sem erros ou dificuldades. Sou humano, enfrento desafios e continuo aprendendo com a vida.
Peço apenas que ela seja lembrada com justiça.
Que ninguém confunda a alegria que levo aos palcos com ausência de responsabilidade.
Que ninguém confunda a liberdade da arte com falta de caráter.
E que ninguém permita que o preconceito diminua a dignidade do trabalho que realizo.
AOS FAMILIARES DE TODOS OS ARTISTAS
Esta carta também pertence a vocês.
Aos filhos dos músicos que passam aniversários sem a presença dos pais porque eles estão trabalhando.
Às esposas e aos maridos que aguardam o retorno de uma viagem.
Às mães que rezam pela segurança dos filhos nas estradas.
Aos familiares dos artistas que jamais conheceram a fama, mas vivem dignamente do seu talento e do seu esforço.
Aos músicos, motoristas, técnicos de som, iluminadores, produtores, montadores de palco e tantos outros profissionais que tornam possível a realização de um espetáculo.
Vocês também fazem parte dessa história.
O artista não é apenas aquele que aparece diante de uma plateia. É também o ser humano que, quando as cortinas se fecham, continua sendo pai, mãe, filho, filha e responsável por compromissos que não desaparecem com o fim do espetáculo.
PARA QUE FIQUE REGISTRADO
Não escrevo estas palavras para pedir reconhecimento, aplausos ou privilégios.
Escrevo para defender o respeito.
Para afirmar que a música é o meu trabalho e que a arte merece a mesma dignidade concedida a qualquer outra profissão honesta.
Se hoje ou daqui a muitas gerações alguém perguntar o que faço e o que fiz da minha vida, minha resposta estará aqui:
Trabalho. Faço música. Subo aos palcos. Enfrento estradas. Busco o melhor para minha família e tenho a honra de fazer parte de uma história que gera oportunidades para inúmeras famílias ligadas à Cacau Com Leite — O Forró da Bahia.
Não sou vagabundo por ser artista.
Sou um trabalhador que escolheu a música como profissão e continua exercendo essa escolha com orgulho.
E se Deus me concedeu o dom de transformar trabalho em alegria para tantas pessoas, sou profundamente grato por isso.
A nossa história não está encerrada.
A Cacau Com Leite continua viva, trabalhando, levando música, preservando a cultura nordestina e escrevendo novos capítulos de uma trajetória construída por muitas mãos.
Que esta carta permaneça como testemunho para meus descendentes e para todos os familiares de artistas que, em algum momento, precisarem lembrar ao mundo que viver da arte é viver do próprio trabalho.
Porque os aplausos podem terminar ao final de cada apresentação.
As luzes dos palcos podem se apagar ao fim de cada noite.
As gerações passam.
Mas a dignidade de uma vida dedicada ao trabalho e à arte não pode ser apagada pelo preconceito de ninguém.
E quando chegar o dia em que minha voz já não estiver presente, que minha história continue falando por mim.
A música é minha vida. O palco é meu lugar de trabalho. Minha família é uma das razões da minha luta. E minha dignidade é o legado que desejo deixar.
Enquanto Deus me permitir, continuo escrevendo essa história, porque ainda há música para tocar, caminhos para percorrer, sonhos para realizar e muitas alegrias para compartilhar.
A nossa história não é apenas aquilo que já vivemos. É também tudo aquilo que ainda estamos construindo.
Com respeito a todos os trabalhadores da arte,
Um músico, um artista, um trabalhador.
CACAU COM LEITE — O FORRÓ DA BAHIA!
por Ascom










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