Em mais de um depoimento tomado no inquérito dos atos antidemocráticos, a Polícia Federal questionou se o filho 02 do presidente, o vereador do Rio Carlos Bolsonaro (Republicanos-RJ), e integrantes do governo estavam por trás dos canais do YouTube que disseminaram discurso antidemocrático. Os investigadores procuraram saber, também, se os proprietários desses canais repassaram recursos de monetização a terceiros e se atuam como “laranjas”. As respostas foram negativas.

Também foram feitos questionamentos sobre eventual “dissimulação da identidade” e criação de perfil em nome de terceiros “para qualquer fim”. As perguntas indicam que a PF busca comprovar se os milhões arrecadados pela “rede do ódio”, por meio dos vídeos que divulga no YouTube, são divididos com servidores do governo e agentes políticos, que alimentam esses canais com vídeos e informações de dentro do Palácio do Planalto. O inquérito que apura o caso em tramitação no Supremo Tribunal Federal (STF), que reúne mais de mil páginas sigilosas, mostra que o apoio do governo a canais no Youtube investigados vai além do acesso privilegiado ao presidente Jair Bolsonaro e das orientações trocadas com funcionários da Presidência da República por aplicativo de mensagem. O inquérito revela que o “gabinete do ódio” garante musculatura à rede de sites bolsonaristas. Depoimentos coletados pela Polícia Federal indicam que os donos dos canais demonstram interesse pelo acesso aos “bastidores do poder”. Isso ajuda a fidelizar o público e aumentar a audiência, além do lucro das páginas. As próprias transmissões ao vivo de Bolsonaro nas redes sociais, executadas com as imagens recebidas de forma privilegiada pela EBC, ajudam a atrair milhares de internautas e impulsionam os lucros das plataformas.

Segunda franquia mais rentável entre os canais bolsonaristas, a Folha Política tinha 1,65 milhão de inscritos no início de março. Hoje está com 2,19 milhões, um salto de 32%. Proprietário do canal, Ernani Fernandes Barbosa Neto disse à PF ter faturado entre R$ 50 mil e R$ 100 mil por mês.

Ao lado da mulher, Thais Raposo Chaves, ele opera os negócios, que incluem uma espécie de incubadora de novos perfis. A dupla também é dona da Novo Brasil Empreendimentos e da Raposo Fernandes Marketing Digital, que já prestaram serviços de marketing a políticos alinhados a Bolsonaro. Antes do sucesso no YouTube, o casal teve 68 páginas e 43 contas derrubadas pelo Facebook, durante a eleição presidencial de 2018. As páginas faziam parte de uma rede de disseminação de desinformação, que violou políticas de autenticidade ao criar endereços falsos e múltiplas contas.