A empresa da família do senador Ciro Nogueira (PP-PI), Ciro Nogueira Agropecuária e Imóveis Ltda, registrou lucro acumulado de exatos R$ 46.881.186,26, até o dia 30 de novembro de 2025. Deste total, o senador vai receber pouco mais de R$ 7 milhões, de acordo com uma ata de reunião de sócios acessada com exclusividade pelo ICL Notícias.
A PF (Polícia Federal) investiga um contrato de R$ 14,2 milhões de reais entre uma empresa vinculada ao empresário Ricardo Magro, Athena Real Estate, e a companhia da família do senador. Magro é apontado pelas autoridades como líder de um esquema suspeito de fraudes fiscais, lavagem de dinheiro e cooptação de agentes públicos.
O negócio aparece em documentos analisados pela PF na Operação Sem Refino, deflagrada contra o grupo Refit, que é de propriedade de Ricardo Magro. O empresário teve prisão decretada pelo STF e é considerado foragido internacional, incluído na lista vermelha da Interpol.
Ciro Nogueira confirmou ao jornal Estado de S. Paulo e à revista Piauí a existência do contrato e afirmou que R$ 10,8 milhões já foram pagos pela compradora.
A reunião dos sócios da empresa Ciro Nogueira Agropecuária e Imóveis Ltda ocorreu em Teresina, capital do Piauí, no dia 1º de dezembro do ano passado. A ata da reunião mostra que foi decidido que os pagamentos da distribuição do lucro acumulado serão realizados ao decorrer dos anos de 2026, 2027 e 2028.
Neste ano, o senador Ciro Nogueira receberá R$ 1.406.435,59; no ano seguinte, R$ 1.898.688,04; e em 2028, R$ 3.727.054,31.
O contrato milionário de Ricardo Magro e Ciro Nogueira
Segundo as investigações, a empresa Athena Real Estate, ligada ao fundo EUV Gladiator, reservou os 14,2 milhões para a compra de uma área de 40 hectares no sul de Teresina, às margens da BR-316. De acordo com Ciro Nogueira, o terreno seria destinado à instalação de uma distribuidora de combustíveis.
O contrato foi assinado em agosto de 2024. Pela empresa da família do senador, assinou Raimundo Nogueira Lima, irmão de Ciro e presidente da companhia. Pela Athena, assinou Pedro Zuaid Dias Soares, apontado pela PF como operador da estrutura financeira atribuída a Magro.
Os pagamentos começaram em novembro de 2024. Inicialmente, foram feitos depósitos de 2,5 milhões de reais nos três primeiros meses. Depois, os repasses passaram para parcelas mensais de 300 mil reais. O último pagamento registrado ocorreu em dezembro de 2025, embora ainda restem 3,4 milhões para quitar o valor total.
A PF tenta esclarecer se a operação imobiliária foi regular ou se serviu para ocultar eventual vantagem indevida. Os investigadores também analisam possível relação entre o negócio e a atuação de Ciro Nogueira no Congresso em pautas de interesse da Refit.
Meses antes da assinatura do contrato, o senador apresentou emendas ao projeto do devedor contumaz que poderiam dificultar o enquadramento de empresas do setor de combustíveis nessa categoria. Nos bastidores, as propostas ficaram conhecidas como “emendas-Refit”, embora não tenham sido aprovadas.
Ciro Nogueira nega qualquer irregularidade. Em nota, afirmou que a negociação foi “regular e totalmente declarada”, disse não ter participado diretamente das tratativas e alegou que sua participação societária na empresa era inferior a 1% à época do contrato. O senador também declarou que atualmente não integra mais o quadro societário da companhia.
Documentos obtidos pela revista Piauí mostram, porém, que Ciro ainda mantinha usufruto sobre quotas da empresa e tinha previsão de receber valores futuros em distribuição de lucros. Questionado sobre isso, o parlamentar afirmou desconhecer os números e disse que iria verificar as informações.
A investigação também aponta conexões entre a Athena Real Estate, a Eurovest S.A. e outras empresas suspeitas de movimentar bilhões de reais em operações consideradas atípicas pelas autoridades. Segundo o Ministério Público e a PF, essas estruturas teriam sido usadas para movimentar recursos da Refit, adquirir imóveis e reinserir capital no sistema financeiro com aparência de legalidade.
A Operação Sem Refino tramita no Supremo Tribunal Federal por envolver pessoas com foro privilegiado. O relator do caso é o ministro Alexandre de Moraes. A PF investiga suspeitas de gestão fraudulenta, evasão de divisas, lavagem de dinheiro e crimes contra a ordem econômica relacionados ao grupo Refit, cuja dívida estimada com os cofres públicos chegaria a 52 bilhões de reais.

Empresa de Ciro recebeu repasses de investigada na Carbono Oculto
Esta mesma empresa da família do senador recebeu R$ 63,9 mil de um posto de combustível localizado em Teresina (PI), que foi alvo da Operação Carbono Oculto 86. A ação, deflagrada pela Polícia Civil do Piauí, investiga um esquema de lavagem de dinheiro do PCC no estado.
Os repasses aparecem em um Relatório de Inteligência Financeira (RIF) produzido pelo Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf), ao qual o ICL Notícias teve acesso.
O posto Pima Energia Amizade — que anteriormente operava sob o nome Maranhão Petróleo — realizou duas transferências para a Ciro Nogueira Agropecuária Imóveis, incorporadora pertencente ao senador. Segundo o relatório do Coaf, foram enviados R$ 47,9 mil em 2 de maio de 2025 e R$ 15,9 mil em 17 de abril do mesmo ano.
As transferências foram feitas por meio da conta do posto na fintech BK Instituição de Pagamento, conhecida como BK Bank. A instituição financeira foi apontada pela Polícia Federal (PF) e pelo Ministério Público de São Paulo (MP-SP) como peça-chave em um esquema de lavagem de dinheiro do PCC.
A conexão entre o banco e a facção criminosa veio à tona na Operação Carbono Oculto, deflagrada em agosto, que mirou empresas e fundos de investimento sediados na Avenida Faria Lima, em São Paulo.
A Pima Energia Amizade faz parte de uma rede de postos de combustíveis em Teresina que foram adquiridos pela Pima Energia Participações, em dezembro de 2023. A transação chamou a atenção da Polícia Civil do Piauí pela ligação do negócio com empresas investigadas por envolvimento no esquema do PCC no ramo de combustível em São Paulo. Por trás do negócio, de acordo com a investigação, estão os empresários foragidos da Justiça Mohamed Mourad, mais conhecido como “Primo” e Roberto Augusto Leme da Silva, o “Beto Louco”.
ICL
Por Alice Maciel e Flávio VM Costa










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