Essa eleição já tem um fato consumado, independentemente do resultado do segundo turno: a volta do ex-ministro Geddel Vieira Lima, do MDB, aos holofotes da política. O retorno do limbo, no entanto, poderá ser consagrado se o PT vencer as eleições neste domingo (30), sobretudo na Bahia e após o emedebista ser alvo dos adversários petistas tanto na campanha local quanto – e mais diretamente – nacional , a exemplo do que ocorreu nesta sexta (28), no debate da TV Globo, quando o presidente Jair Bolsonaro (PL) lembrou do episódio das malas com R$51 milhões em dinheiro vivo encontradas num apartamento de Geddel em Salvador para atacar o oponente Luiz Inácio Lula da Silva.

“Eu tenho o retrato do teu amigo Geddel Vieira Lima com R$58 milhões (sic) num apartamento. Aí uma constatação, uma verdade. E o Geddel é coordenador de sua campanha na Bahia. Que vergonha o seu partido na Bahia. Tem gente que vai votar ainda no PT da Bahia? Pelo amor de Deus. Eu estou falando aqui de R$58 milhões no apartamento dele. Fala ai, Lula, de Geddel, teu amigo. Vai ser ministro teu? E ele é coordenador da sua campanha na Bahia”, disse Bolsonaro no debate da Globo. O ex-presidente respondeu que o assunto do ex-ministro era com a Polícia Federal (PF), ou seja, não defendeu o aliado, que ocupou a pasta da Integração Nacional no segundo governo de Lula.

Após o debate, esse trecho foi recortado em vídeo e viralizou nas redes sociais e aplicativos de mensagem, com diversas montagens associando Geddel ao candidato do PT a governador da Bahia, Jerônimo Rodrigues. Os próprios aliados de ACM Neto, postulante do União Brasil ao Palácio de Ondina, costumam afirmar que o ex-ministro é coordenador da campanha petista no estado, tendo, inclusive, aconselhado o ex-secretário da Educação a não comparecer aos debates no segundo turno. Geddel negou que tenha essa função e frisou que se limita a dar opiniões pessoais.

Das malas à volta aos holofotes

Inicialmente, o emedebista reapareceu timidamente na coletiva que oficializou a edição 2.0 da aliança entre o partido e o PT na Bahia, no final de março deste ano. No começo de julho, fez o primeiro discurso público após a prisão, durante o lançamento das chapas proporcionais do MDB do estado, ao lado do candidato a vice-governador na chapa liderada por Jerônimo Rodrigues, o emedebista Geraldo Júnior. Na ocasião, o ex-ministro elogiou Lula e Jerônimo e bradou: “Explorem o que quiser, falem o que quiser, mas não vão cassar minha cidadania. Não nasceu ainda nem na Bahia e no Brasil ninguém para cassar minha coragem. Eu vou lembrar velho Zagallo: vão ter que me engolir, porra”.

Geddel foi preso em 2017, após a Polícia Federal (PF) encontrar as malas com dinheiro em um apartamento em Salvador ligado a ele. Na época, o ex-ministro e o MDB eram aliados de ACM Neto. Em junho de 2021, foi colocado em prisão domiciliar por conta da pandemia, e, em agosto, a Segunda Turma do Supremo Tribunal Federal (STF) absolveu ele e o irmão, o ex-deputado federal Lúcio Vieira Lima (MDB) – que nunca foi encarcerado – do crime de associação criminosa, mantendo a condenação por lavagem de dinheiro. Logo depois, em setembro, o ministro Edson Fachin concedeu a progressão ao regime semiaberto ao ex-ministro, que vinha fazendo politica só nos bastidores.

Neste segundo turno, Geddel voltou a dar entrevistas à imprensa e, quando questionado sobre as malas, costuma tergiversar, afirmando até que não deseja “machucar” o Poder Judiciário e que o assunto pode ser tratado com os advogados. Ele costuma dizer ainda que a foto das malas é usada para constrangê-lo. Por conta do episódio, os petistas também evitaram o constrangimento e não quiseram a presença do ex-ministro em nenhum evento público de campanha – o MDB sempre foi representado principalmente por Lúcio Vieira Lima, que tem feito o papel de crítico contumaz de ACM Neto nas redes sociais e junto à imprensa.

Ex-ministro responde Bolsonaro e Lula

Na campanha para presidente, o primeiro a usar Geddel e as malas para atacar Lula e o PT foi Ciro Gomes. Nas lives semanais, o pedetista explorou até o vídeo da primeira aparição pública do ex-ministro após a prisão durante o anúncio da retomada da aliança com os petistas na Bahia, em Salvador, quando o emedebista tentou aparentemente se esconder. No primeiro debate da campanha, exibido pela Band no início de setembro, Ciro afirmou que o ex-presidente estava com Geddel e outros “ladrões”, pedindo que a população pesquisasse no Google porque o emedebista baiano foi preso. O ex-ministro rebateu nas redes sociais, chamando o ex-governador do Ceará de “picareta”.

Geddel foi alvo também da propaganda eleitoral de Bolsonaro, que lembrou o episódio das malas para associar o emedebista a Lula. Em resposta, o ex-ministro chamou o presidente de “energúmeno” nas redes sociais. Geddel também respondeu os ataques feitos por Bolsonaro no debate de ontem da Globo. “O chefe da família de cleptomaníacos me homenageou no debate. O celerado me promoveu a coordenador da campanha de Lula. É um culhudeiro profissional”, escreveu. “O engraçado é que ele chama o Lula toda hora de ex-presidiário. Engraçado porque então estamos diante do debate entre o ex-presidiário e o futuro presidiário”, complementou.

Geddel publicou ainda um vídeo com um discurso feito em 1992 pelo então deputado federal Jair Bolsonaro no qual o atual presidente da República defende que o Brasil adote, como política de saúde pública, uma “pílula de aborto”, a exemplo do que aconteceria na China. O tema foi provocado no debate por Lula, em um dos momentos mais tensos do confronto.

Ele respondeu ainda sobre o posicionamento de Lula no debate de que quem tem de tratar do assunto Geddel é a Polícia Federal. O ex-ministro compartilhou a nota divulgada pelo aliado e ex-presidente Michel Temer (MDB-SP), chamado de golpista pelo petista ao longo do confronto de ontem na Globo. “Lula deverá perder preciosos votos com sua deselegância e inoportunidade política”, afirmou Temer. “Parabéns, presidente. Sempre elegante e altivo. O buffet nem sempre tem filé”, disse Geddel em complemento à postagem.