Formar leitores também é ampliar os olhares sobre o mundo, reconhecer diferentes histórias e compreender as relações que atravessam a sociedade. Na 14ª Festa Literária Internacional de Cachoeira – FLICA, que acontece de 5 a 8 de novembro, essa perspectiva ganha força com uma programação que aproxima letramento literário e racial durante o Mês da Consciência Negra. Na Tenda Paraguaçu, debates sobre inteligência artificial, racismo algorítmico, ancestralidade e narrativas negras propõem reflexões sobre a conexão entre literatura, educação e tecnologia.
Entre os nomes que contribuem para essa discussão está Nina da Hora, cientista da computação, pesquisadora e ativista antirracista, que dividirá a mesa de abertura da Tenda Paraguaçu com a jornalista Miriam Leitão, na quinta-feira (5), às 11h. Guiada pelo tema “Penso, logo… IA: distopias à vista?” e mediada pelo especialista em cultura Zulu Araújo, a conversa traz os impactos da inteligência artificial na sociedade, com atenção aos dilemas éticos que podem reproduzir desigualdades raciais.
Na ocasião, Nina lança o livro “Do rosto ao vetor: uma história da medição do rosto, da eugenia ao algoritmo”, no qual investiga o conceito de epistemicídio computacional, que trata do apagamento ou da distorção de conhecimentos e identidades de grupos historicamente marginalizados.
Na visão de Nina da Hora, as desigualdades raciais presentes nos sistemas de inteligência artificial estão relacionadas aos dados usados para treiná-los e à forma como as pessoas são representadas, questão que ela aprofunda em sua pesquisa. “A IA aprende com dados, e os dados que temos no Brasil carregam a nossa história: quem foi abordado pela polícia, quem conseguiu crédito, quem foi fotografado e quem nunca entrou nos registros. Um sistema treinado com isso aprende essas diferenças como se fossem normais e devolve o resultado com cara de decisão técnica. O erro começa antes da máquina, na forma como a gente classifica e representa as pessoas”, analisa.
Dedicada a temas mais profundos e maduros, a Tenda Paraguaçu explora a revolução da IA no campo das letras. Segundo o curador Marielson Carvalho, o letramento literário passa pela compreensão dessas transformações na forma como as pessoas se relacionam com a leitura.
“Nós estamos vendo o quanto os algoritmos estão dando um nó nas legislações e como há uma necessidade de regulação da IA. Tem pesquisadores alertando sobre os perigos da superinteligência descontrolada. Eu acho isso meio distópico, o que é até tema da mesa de abertura. É preciso pensar nos benefícios e malefícios da IA e nos caminhos para lidar com ela no futuro, tanto na literatura quanto nas relações pessoais”, pontua Marielson.
Vozes negras no palco da FLICA – Ainda na quinta-feira (5), às 19h, o espaço recebe o sarau “Sued Nunes Não Anda Só”, encontro que reúne vozes negras baianas em performances literárias e musicais refletidas por experiências coletivas de luta contra o racismo. Ao lado da cantora e compositora Sued Nunes, participam Afropecado, poeta marginal, MC e produtora cultural; Duda Santhana, jovem poeta e declamadora; MC Jaynne, rapper e compositora; e Matheus Kawan, escritor, poeta e pesquisador. A proposta valoriza a produção artística da Bahia e do Recôncavo, realçando a diversidade de expressões culturais e a força das vivências negras na arte.
Matheus Kawan comenta que o próprio título do sarau reforça a ideia de que nenhuma trajetória, seja artística ou não, se constrói sozinha. “Acredito que nossas vozes e linguagens artísticas, embora distintas, irão se conectar a partir do senso de comunidade e pertencimento. Quando nosso eu se reflete em quem se parece com a gente, os caminhos se povoam pelas experiências compartilhadas. O público pode esperar um encontro crítico e sensível, marcado pelo afeto, ancestralidade e pela potência criativa, em que cada voz fortalece a outra para que, juntos, possamos construir uma narrativa ainda mais poderosa e coletiva”, avalia o poeta.
A produção assume um significado político, especialmente durante o Mês da Consciência Negra. Ele reforça que a presença da literatura afro-baiana na FLICA, destaca o compromisso do evento com a inteligência ancestral. “Esse reconhecimento nos faz perceber que nossas vivências têm transcendido a dor, se afirmando cada vez mais em sua potência estética, artística e política. Temos muito a escrever, dizer, criar, oferecer e prosperar. Nenhuma história opressora pode se sobrepor a uma luta memorável”, declara.
O que a memória não deixa apagar – Na sexta-feira (6), às 15h, chega a vez da mesa “Inteligência ancestral, memórias afrofuturistas”, que reconhecerá as oralidades africanas e diaspóricas como formas de preservar saberes e imaginar novas possibilidades para o futuro. Integram o bate-papo o escritor afrofuturista Ale Santos, apontado pela Science Fiction Research Association (SFRA) como o mais popular da nova geração, e Cesar Sobrinho, pesquisador, professor e tradutor reconhecido por traduzir do francês para o português contos populares africanos e afrodiaspóricos. A mediação será da professora, pesquisadora e crítica literária Cristian Sales.
Para Ale Santos, reconhecer a inteligência ancestral também representa ampliar a compreensão sobre o que é tecnologia e questionar a ideia de que o futurismo depende necessariamente das máquinas e aplicativos. “Povos e países que não têm o controle das máquinas, como as Big Techs dos Estados Unidos, são vistos como periferia, sendo que, na história da humanidade, muitas tecnologias vieram de povos amazônicos, africanos e latinos. Elas conseguem constituir um progresso social, harmônico, sustentável e biodiverso muito mais poderoso. As tecnologias culinárias, musicais e artísticas, por exemplo, ajudam a manter tradições, conectar indivíduos durante gerações e preservar o equilíbrio com o meio ambiente”, explica.
O escritor destaca o papel da FLICA em aproximar narrativas afro-brasileiras e as novas gerações de leitores, além de contribuir na valorização de imaginários que nascem no Brasil e que colocam protagonistas negros no centro da imaginação, fantasia e ficção. “Temos um país que bebe muito das imagens de futuro e da literatura fantástica que vêm do estrangeiro. No painel, iremos tratar sobre como todas essas tecnologias ancestrais nascidas do seio do Brasil, da floresta, dos povos africanos e ameríndios podem constituir novas estéticas visuais que compõem a indústria de entretenimento, cinema, videogame, literatura e tudo mais”, conta Ale Santos.
O racismo por trás dos algoritmos – Já no sábado (7), às 18h, a mesa “Inteligência artificial e racismo – Algoritmos da branquitude” encerra a programação da Tenda Paraguaçu com uma reflexão sobre como sistemas de inteligência artificial podem perpetuar estruturas históricas de poder, preconceitos e discriminações. A discussão sobre o racismo nas tecnologias digitais e seus efeitos nas relações étnico-raciais no Brasil contará com Nilma Lino Gomes, pedagoga, escritora e ex-ministra das Mulheres, da Igualdade Racial e dos Direitos Humanos, e Tarcízio Silva, pesquisador em políticas tecnológicas, doutor em Ciências Humanas e Sociais e mestre em Comunicação. A mediação ficará a cargo de Jamile Borges, professora e vice-reitora da UFBA.
A proposta curatorial da Tenda Paraguaçu considera a conscientização parte essencial do letramento literário e racial. Inspirado pelo pensamento de Paulo Freire, “A leitura do mundo precede a leitura da palavra”, o curador Marielson Carvalho ressalta que esse processo começa antes mesmo da alfabetização e passa pela compreensão das realidades que cercam cada indivíduo. “A criança, antes de ler, tem acesso a vários sinais, significados, seja a natureza, oralidade ou histórias contadas pelos seus mais velhos. O livro é uma referência de conhecimento, mas não é a única. A literatura escrita e oral fazem parte da nossa programação, porque a contação de histórias, por exemplo, faz parte desse letramento”, completa.
A 14ª edição da FLICA tem patrocínio do Governo do Estado da Bahia, por meio do FazCultura, da Secretaria da Fazenda (Sefaz), da Secretaria de Cultura do Estado da Bahia (SecultBA) e da Secretaria da Educação (SEC). O evento integra o Bahia Literária, programa da Fundação Pedro Calmon (FPC), unidade vinculada à SecultBA. A realização é da SCHOMMER Produções.
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SERVIÇO:
TENDA PARAGUAÇU – FLICA 2026
Quando: 5 a 8 de novembro
Onde: Beira do Rio Paraguaçu, Cachoeira-BA
Entrada gratuita









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