Lideranças de algumas das principais igrejas evangélicas do país passaram a adotar uma postura de distanciamento em relação a Flávio Bolsonaro (PL) após a derrota presidencial e a divulgação de uma carta em que o senador contestou o resultado das urnas. O movimento envolve representantes da Igreja Universal e de setores das Assembleias de Deus, que buscam evitar uma associação direta com as iniciativas do grupo bolsonarista.

A mudança de posicionamento ocorre depois de parte dessas lideranças ter demonstrado apoio mais explícito à candidatura de Flávio no segundo turno. O desempenho eleitoral de políticos ligados às igrejas também contribuiu para o cenário: parlamentares apoiados por lideranças religiosas perderam espaço, enquanto metade dos 12 deputados federais vinculados à Universal não conseguiu se reeleger.

Um dos sinais de afastamento veio da própria Universal. No dia seguinte à eleição, o bispo Alessandro Paschoall, que atua como porta-voz da igreja em assuntos políticos, compartilhou um trecho de um culto no qual Edir Macedo, líder da instituição, questiona o lema bolsonarista “Deus, pátria e família”.

“Na Universal, nós priorizamos essa hierarquia: primeiro Deus, depois família, e depois o resto. Não concordo com essa teoria ‘Deus, pátria e família’. Porque se não houver família, vai haver pátria? Impossível. Só há pátria se vier da família, que vem de Deus”, afirmou Macedo.

A manifestação ocorreu após uma campanha marcada por posições distintas dentro da igreja. Enquanto políticos ligados à Universal, como o presidente nacional do Republicanos, Marcos Pereira, apoiaram Flávio, pastores próximos a Macedo evitaram declarar adesão explícita. Paschoall chegou a afirmar que sua orientação política não era de direita nem de esquerda, mas ligada ao “reino de Deus”.

O bispo Inaldo Silva, vereador do Republicanos no Rio de Janeiro, interpretou a postura como uma tentativa de preservar a unidade da comunidade religiosa, que reúne fiéis com diferentes preferências políticas.

“Não podemos subestimar alguém que teve mais de 60 milhões de votos. A neutralidade veio porque a gente acaba escolhendo um lado e perdendo muito, na nossa comunidade há pessoas da direita e da esquerda”, declarou.

Na Assembleia de Deus de Madureira, que apoiou Flávio no segundo turno, o bispo Abner Ferreira reconheceu a vitória de Lula no dia seguinte à votação. Na segunda-feira, publicou uma mensagem nas redes sociais defendendo respeito às decisões populares e maturidade no ambiente democrático.

A mesma linha foi adotada pelo bispo JB Carvalho, da Comunidade das Nações, igreja de Brasília onde Flávio foi batizado em 2024. Ele afirmou que as eleições terminaram e que não existe um terceiro turno. Também pediu que apoiadores deixassem de “profetizar o caos”.

As declarações ocorreram após Flávio publicar uma carta, já nos Estados Unidos, na qual se apresentou como “verdadeiro presidente eleito” e, em uma segunda versão, como “líder” do país.

O apóstolo César Augusto, dirigente da Igreja Fonte da Vida e apoiador do senador, também criticou a reação à derrota, embora tenha afirmado que não se arrependeu do voto.

“Numa derrota, você fica extremamente decepcionado. Nesse momento, o conselheiro tem que ter a sensatez de ajudar, equilibrar. Acho que ele foi muito mal orientado. Não concordo, mas não vejo como um problema de ele se achar ditador, não. Isso foi no calor da derrota. As eleições ocorreram, segundo a Justiça, de maneira legal, então vira-se a chave para olhar o futuro do país”, afirmou.

Apoios permanecem no meio evangélico

Nem todas as lideranças romperam publicamente com Flávio. O pastor Silas Malafaia, da Assembleia de Deus Vitória em Cristo, criticou a postura Flávio após a divulgação da carta, mas declarou publicamente considerar o senador um perseguido político e concordar com sua saída do Brasil.

O deputado Eli Borges (Republicanos-TO), ex-presidente da bancada evangélica na Câmara e pastor da Assembleia de Deus, também manifestou apoio à saída do senador do país, embora tenha afirmado não ter lido a carta.

Flávio, por sua vez, mantém agendas com representantes religiosos no exterior. Na segunda-feira, participou de um culto do Ministério Celeiro, na Flórida, acompanhado do irmão Eduardo Bolsonaro e das respectivas esposas. Durante a celebração, o pastor José Maurício dirigiu uma mensagem de apoio ao senador.

 

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