No rádio antigo da minha memória, ainda ecoa uma velha canção que dizia que a ausência é um pedaço da gente que fica perdido no tempo, esperando voltar. Mas em Ilhéus, a ausência não espera. Ela se instala, confortável, como se fosse dona da casa. Não é ausência que deixa saudade, porque ela, ao menos, carrega lembranças. É uma ausência seca, sem poesia, que se multiplica. A ausência é do poder público, das instituições, da coletividade e até de vozes que poderiam fazer a diferença, mas se calam, mas certamente elas tentarão aparecer em 2026 e dizer sobre isso e aquilo. E precisamos ficarmos bem atentos essas vozes aparecerão de múltiplas formas.

 

Basta andar pela cidade para perceber que administrar virou exercício intermitente, daqueles que só se pratica quando sobra tempo ou interesse. Obras se perdem no mato e no tempo, verbas públicas evaporam e os dias se repetem como novela cujo final já conhecemos. Espaços para participação popular são raros e quando surgem, logo se fecham. Quem deveria estar no centro das decisões acaba no canto e o abandono vai se tornando cenário fixo. Cadê os espaços para as associações Comunitárias ? Para as ONGs ? Para os programas e projetos sociais? Quem faz ? Com quem falamos ?

 

Na política, a ausência tem uma lógica peculiar. Quando é para tratar de interesse público, sobra silêncio; quando é para costurar alianças ou garantir presença em palanques, aí não falta disposição. E não é exclusividade de quem governa, a ausência também ocupa lugares que poderiam ser preenchidos por lideranças capazes de defender a cidade, buscar pontes, articular mudanças. Sem presença firme, Ilhéus perde oportunidades antes mesmo de saber que elas existiram.

 

Enquanto isso, instituições de ensino e pesquisa, escolas em tempo integral e iniciativas culturais seguem como ilhas de excelência. O problema não está nelas, mas na ausência de diálogo que as conecta ao restante da cidade. Bastaria articulação para transformar conhecimento em ação, pesquisa em solução, cultura em oportunidade. Sem essa ponte, o potencial existe, mas fica isolado, longe do cotidiano e das necessidades urgentes de Ilhéus e dos seu munícipes (povo).

 

Mas nem toda ausência nasce do abandono visível. A Orla Sul, por exemplo, vive uma fase de expansão impressionante, atraindo novas empresas, movimentando a construção civil e gerando empregos. É um território de oportunidades. Ainda assim, entre os prédios imponentes que se erguem, muitos apartamentos acabam sendo adquiridos por pessoas de fora, que permanecem fechados durante a maioria do ano, servindo apenas ao aluguel na alta temporada. É muito dinheiro circulando, mas que, em grande parte, não permanece na cidade. Essa dinâmica, além de alimentar a especulação imobiliária, influencia os valores de aluguel em toda Ilhéus. Com presença política e acordos bem articulados, esse crescimento poderia garantir retorno contínuo para a economia local, beneficiando a cidade o ano inteiro e não apenas nos meses de verão.

 

Nesse cenário, a cidade também precisa de um pacto silencioso, mas firme. Precisa que o povo ocupe os espaços que lhe pertencem. Não para substituir o papel do poder público, mas para lembrá-lo de que trabalha para a população e não o contrário. É ocupar conselhos, praças, debates, é transformar pertencimento em ação. Não esperar que a mudança venha de cima, mas criar movimentos que façam o poder público se mover.

 

Ausência não precisa ser destino. Cada espaço vazio que aceitamos é um pedaço da cidade que se perde. O maior patrimônio de Ilhéus não está só nas praias, no cacau ou nos cartões-postais, está nas pessoas que decidem fazer parte da solução. E quando vencermos as ausências pequenas, de diálogo, de empatia, de presença, estaremos prontos para derrotar também as grandes. Ilhéus pode ser o melhor lugar para viver, mas, para isso, é preciso coragem para trocar a ausência pela presença e ocupar, de vez, o palco da própria história, Ilheus rumo aos seus 500 anos e me parece que estamos ainda em uma capitania onde são os pseudos coronéis que ainda decidem e traçam nossa rumos , histórias, estórias e cultura.

 

*EMENSON SILVA É DIRETOR DO CURSO GABARITANDO.